Na Rota dos Cantores Atlânticos

Tive o prazer de participar, como arranjador e orquestrador, no espectáculo Na Rota dos Cantores Atlânticos, decorrido no Teatro Micaelense no passado dia 1 de Maio.
A meu cargo, as versões de Barqueiro Velho (João Miguel Sousa / Fernando Reis Júnior), Tema para Margarida (Aníbal Raposo) e Comércio de Angra (Aníbal Raposo / Álamo Oliveira), interpretadas pelo Orfeão Stella Maris, de Toronto, com Direcção de José Rodrigues.

O concerto teve a primeira parte a cargo do Orfeão Edmundo Machado de Oliveira e contou ainda participação especial do grupo Belaurora, Carlos Frazão, José Medeiros, Aníbal Raposo, Luís A. Bettencourt e Helena Oliveira.

Aqui ficam os registos fotográficos de alguns momentos dos ensaios, concerto e convívio. Pretendo publicar em breve alguns vídeos do concerto.

Ensaio Geral


Orfeão Edmundo Oliveira


Orfeão Stella Maris


25 Anos de Música Original nos Açores

Encontram-se concluídas as misturas do álbum 25 Anos de Música Original nos Açores, registo ao vivo do espectáculo homónimo estreado em 2007. O trabalho de estúdio, da responsabilidade de Tó Pinheiro e Augusto Macedo, aguarda agora a conclusão do trabalho documental de José Medeiros, a incluir em formato DVD. Juntamente com o Songbook de Autores Açorianos, editado em 2007, estas obras constituem o centro do projecto desenvolvido pelo Teatro Micaelense nos últimos dois anos, centrado na música de autores açorianos.


Carlos do Carmo Songbook


É com muita honra que anuncio a edição do Carlos do Carmo Songbook, trabalho ao qual me dediquei nos últimos meses juntamente com Augusto Macedo. Numa edição bilingue (Port/Ing) da responsabilidade da Edições Nelson de Matos, este livro reúne cerca de cinquenta fados e canções interpretados por Carlos do Carmo, no ano em que o fadista comemora 45 anos de carreira.

Os temas incluídos nesta selecção representam uma parte nuclear do seu repertório, marcando presença os principais autores aos quais o fadista deu voz, como Frederico de Brito, Júlio de Sousa, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Luís Tinoco, José Mário Branco, Ivan Lins, Pedro Abrunhosa, Ary dos Santos, Manuel Alegre ou Pedro Tamen. O formato das partituras é o convencional, com melodia cifrada ao estilo Anglo-saxónico.

O livro inclui também um texto biográfico sobre Carlos do Carmo, textos de apoio à interpretação das partituras e da tradução, inúmeras fotografias, um manuscrito inédito de José Afonso e a discografia essencial do fadista. O texto de contra-capa, em jeito de Prefácio, é da autoria de Ivan Lins.



Ficha técnica:
Título: Carlos do Carmo Songbook
Autores: Rafael Fraga e Augusto Macedo
Editora: Edições Nelson de Matos (+)
Tradução e revisão para Inglês: Maria João Freire de Andrade
Revisão: Lídia Freitas
Edição bilingue (Port/Ing)

Em Amesterdão

Estou, desde inícios de Setembro, a residir em Amesterdão, realizando o Mestrado em Composição no Conservatório da cidade. Aos curiosos em acompanhar alguns elementos mais pessoais desta nova experiência, sugiro uma visita de vez em quando ao Des-terrados, novo Blog que partilho com Paulo Santos Luís, amigo a residir desde há alguns dias nas Maldivas.

Passada esta fase de transição, terei em breve novidades sobre os meus mais recentes projectos - que os há!

Entretanto, assumi responsabilidades na elaboração da Newsletter do Departamento de Composição do Conservatório de Amesterdão. De periodicidade mensal, traz um resumo dos principais eventos da cidade na área da composição contemporânea, bem como das principais actividades do Departamento. Os interessados poderão consultá-la aqui:


Sobre o Acordo ortográfico e a Lusofonia

Vi-me perante a decisão de assinar uma petição requerindo a rápida implementação do acordo ortográfico, num contexto de defesa da Lusofonia. Assim, resolvi apressar uma reflexão que vinha fazendo sobre o assunto, do que resultou a minha actual opinião, que agora partilho.

Desconheço, em profundidade os argumentos das facções "pro" e "anti" acordo ortográfico. O debate que tenho acompanhado baseia-se, quase exclusivamente, em questões linguísticas e, dentro destas, nas de grafia. Ora, como sabemos, a construção linguística apenas começa na grafia, mas depende muito mais de outros parâmetros como os de síntaxe ou gramaticais para a prossecução do seu principal objectivo - a comunicação.

A grafia, como o nome indica, reflecte-se na forma - menos no conteúdo; para um cego, qual o real impacto do (des)acordo ortográfico? Será assim tão relevante? Por outro lado, o desejo de simplificação e normalização linguísticas, independentemente do custo emocional das cedências, implica uma desvinculação a aspectos etimológicos porventura importantes. Muitas palavras conservam características próprias desde a sua raiz greco-latina, reflectem-na, ampliam-na, e a simplificação ocorre como processo natural de uma língua viva. Acho salutar, para uma profunda compreensão da etimologia e significados, bem como o seu potencial enquanto ferramenta de expressão, conservar-se essa raiz - muitas vezes perdida pela supressão de consoantes mudas.

Assim, sob o ponto de vista da grafia, sou um acérrimo defensor do "português luso", que considero mais elegante, escorreito e eficaz; por outro lado, sou um admirador incondicional dos grandes escritores brasileiros, nomeadamente do séc. XX, que demonstram como é possível escrever bem em português, independentemente da "pronúncia" brasileira do discurso. A diversidade de "pronúncias", enquanto expressão intelectual de vivências e maneiras de organizar o pensamento, é o que de mais salutar pode, quanto a mim, existir...

Os povos lusófonos vivem cultural e geograficamente demasiado distantes para que, mesmo com as actuais tecnologias de comunicação, os esforços de normalização sejam capazes de surtir efeitos a longo prazo: qual o "prazo de validade" de um actual acordo? Se, por exemplo, daqui a 50 anos Angola, por exemplo, for uma potência literária e intelectual (na perspectiva de infra-estruturas de ensino, etc.) comparável ao Brasil, far-se-ão novos acordos, agora mais adaptados a eventuais novas grafias?

Duas das maiores potências mundiais, Estados unidos e Grã-Bretanha, falam Inglês diferente. Qualquer um dos seus mercados é maior do que Portugal alguma vez será - e o Inglês é, cada vez mais, a linguagem universal - Será relevante ou até possível pensar numa normalização? Haverá reais vantagens nesses dispêndio de energias e fundos?

A Língua Portuguesa deixou de ser dos Portugueses quando dela fizeram uso para efectivar a conquista de novos povos e territórios. A normalização é impossível dentro do próprio país, se não graficamente, mas no profundo significado que cada palavra e expressão tem.

Para mim, a Lusofonia é um conjunto de pessoas que partilham e se revêem em aspectos intimamente ligados à cultura portuguesa e a alguns valores a ela intrínsecos; desses, a língua é apenas um ponto de partida - importante, mas não essencial. Não bastará falar português para integrar a "Lusofonia", enquanto congregadora cultural, elo de união universal e, no seu íntimo, indefinível.

A minha opinião é que Portugal conserve a sua Língua e a dignifique; que a ensine melhor, que a promova, que conquiste novos mercados económicos e culturais porque é realmente bela, infinitamente potente enquanto veículo comunicacional. O português, enquanto língua viva, é diferente, sempre, porque a mutação é constante - porém, lenta; assim, só nos apercebemos de forma relevante dessas diferenças a intervalos de tempo razoáveis, de digamos, uma, duas gerações. Aí, será tempo de reflectir, distinguir evolução de deturpação quando possível, intervir "oficialmente" se estritamente necessário.

As cedências gráficas parecem-me redundantes - tanto há a fazer para aproximar os povos, tanto património cultural e intelectual a preservar, a compreender, tantas diferenças e injustiças a atenuar. Será que o povo brasileiro está preocupado com a grafia da língua? E o de Timor-Leste? E o português? Não será essa a razão pela qual o debate passa ao lado da maioria das pessoas, que é quem verdadeiramente faz a língua existir?

Perdoem-me o excesso, mas como se pode falar de acordo ortográfico como factor essencial da Lusofonia, se a grande maioria dos nossos irmãos africanos vive abaixo do limiar da pobreza, se em Timor a guerra continua, não nas parangonas dos jornais mas no seio das populações? No Brasil há mais de 50 Milhões de pobres, e destes, metade vive em pobreza extrema! Isto, no país que ocupa o 9º lugar mundial a nível de desenvolvimento, e em que bastava 5% do rendimento bruto para erradicar a pobreza! Para não falar de Portugal...

Custa-me falar de "óptimo" ou "ótimo" nestes casos; porque estamos tão longe do aceitável...
Não conseguimos travar os processos locais de evolução linguística - que causarão sempre uma deturpação do original. Mas talvez consigamos, saindo das cátedras da teorização, universalizar o respeito pela vida e pela natureza, os direitos do homem, a fraternidade, a transmissão de ideias e culturas, cruzamento de saberes e, sobretudo, da igualdade.

Assim, talvez possamos implementar a verdadeira Lusofonia.